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Por mais de mil e quinhentos anos, foi este o único diálogo de Platão que o mundo latino conheceu. Traduzido por Cícero, comentado por Proclo, retomado pelos Padres da Igreja, vertido ao latim por Calcídio no século iv e lido pelos medievais quase como a própria imagem do filósofo, o Timeu é o texto mais citado por Aristóteles entre todos os escritos platônicos - e o único livro que Rafael, na Escola de Atenas, pôs debaixo do braço de Platão como síntese de todo o seu pensamento.Nele, Platão narra a origem do cosmos: um Demiurgo que, tomando como modelo o ser eterno e imutável, plasma a matéria informe e caótica - a 'necessidade'- conduzindo-a à ordem pela persuasão racional, não pela coerção. É esta a doutrina do 'deus que sempre geometriza': da mistura entre inteligência e necessidade nascem, por números e formas geométricas, os próprios elementos físicos - fogo, terra, água e ar. Não é uma criação a partir do nada: é a passagem de um informe indeterminado a uma ordem segundo o modelo eterno.E é essa mesma arquitetura racional que se estende, por fim, ao homem. O Demiurgo cria os astros divinos e, na mesma crátera, as almas racionais dos homens - destinadas a não morrer, mas lançadas num corpo onde deverão dominar as paixões e buscar a justa medida entre corpo e alma. Platão sela o discurso com uma imagem que atravessou os séculos: a alma mais alta em nós nos eleva à realidade que nos é congênere no céu, pois 'não somos plantas terrestres, mas celestes'. Denso e exigente, redigido em boa parte como tratado e não como diálogo, o Timeu segue sendo, apesar disso, uma das obras-primas da filosofia de todos os tempos.