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Duas placas tectônicas se encontram e se chocam.' Partindo dessa imagem inaugural, nasceu Alguma coisa falta aqui, peça escrita por Bernardo Coimbra. Assim como no encontro imprevisível de forças subterrâneas, a obra encena colisões humanas: encontros e desencontros amorosos, momentos de solidão, redes sociais personificadas em diálogos fantasiosos, âncoras de telejornal cobrindo acontecimentos absurdos. A estrutura da peça é construída com o fluxo de cenas sucessivas, que surgem como postagens ininterruptas, tendo o humor como fio condutor. Cabe ao espectador, e ao leitor, organizar, ou não, essa linha do tempo fragmentada, construindo sua própria narrativa a partir dos recortes apresentados. Alguma coisa falta aqui estreou em outubro de 2025 no Teatro Municipal Domingos Oliveira, no Planetário da Gávea, com direção de Stella Rabello. A publicação do texto amplia a experiência da peça, permitindo que o leitor percorra, no ritmo da leitura, essas camadas de humor, tensão e reflexão que fazem ecoar a questão central da obra: afinal, o que nos falta? Trechos Trecho 1: 'Duas placas tectônicas se encontram e se chocam formando uma cadeia montanhosa no meio do continente asiático. No topo dela se vê um homem que escala cada pedaço daqueles 8849 metros de altitude com o objetivo de chegar em algum lugar suficientemente calmo e suficientemente vazio pra terminar uma tarefa que ele tenta há mais de um ano. Duas placas tectônicas se encontram e se chocam formando um tsunami no canto direito do oceano Índico. Na base da onda se vê um homem que mergulha cada gota daquele infinito aquático à procura de algo suficientemente estranho e suficientemente asqueroso para guardar na sua memória. Duas placas tectônicas se encontram e não se chocam formando apenas um continente. De dentro do continente se vê uma mulher que afasta as pernas, respira fundo e desesperado e emite um som gritado na esperança de uma cólera de um outro ser vivo suficientemente pequeno e suficientemente vivo como uma manhã.' Trecho 2: 'Sentado em uma cadeira de rodinhas, um homem escreve seu testamento. Ele senta na sua cadeira para terminar um texto, mas o seu pensamento se perde e ele decide que já está na hora de escrever seu testamento. Ele olha em volta procurando seus bens que valem a pena colocar em seu testamento. Ele pensa que gostaria que os livros fossem para a sua melhor amiga, ele pensa que gostaria que seus textos fossem produzidos por alguma produtora muito grande, ele pensa que gostaria que a sua televisão voltasse para a sua irmã, pois foi um presente dela. Ele pensa. Ele pensa demais ultimamente. Ele pensa mais do que gostaria. E pensar não tem sido fácil. É que ele tem chorado mais do que gostaria.'